sexta-feira, 20 de abril de 2007

Viver ou calar


A leitura dos Salmos me traz uma inquietação ao coração. Vejo as afirmações que Davi fez e pergunto-me que tipo de situação o levou a fazê-las.
Enquanto fugia de Absalão, seu filho, que armou para tirar-lhe o trono, sendo, agora, apenas um fugitivo num deserto, tendo deixado para trás seu reino e a suposta palavra de Deus que dizia que ele seria o rei de Israel, triste pelas calúnias que se diziam sobre ele (2 Sm 16:8). Ele apenas afirmou: “Porém tu, SENHOR, és o meu escudo... Deito-me e pego no sono; acordo, porque o SENHOR me sustenta.” (Sl 3:3a, 5)
Como essas, há tantas outras afirmações: “Deus é justo juiz” (Sl 7:11a); “Em ti, pois, confiam os que conhecem o teu nome, porque tu, SENHOR, não desamparas os que te buscam.” (Sl 9:10).
O que mais me chama a atenção é que ele fez essas afirmações ou durante ou depois de alguma dificuldade. Não antes. Só posso imaginar que ele viveu o que afirmou.
Lembro então do período de minha conversão a Deus, das orações de entrega, dos compromissos, das palavras ditas que comprometeriam minha vida inteira. Hoje confesso que, na época, eu não tinha noção de que, muitas vezes, viver algumas orações nem sempre é agradável, e, muitas vezes, é doloroso.
Lembro de dizer: “Deus, quero te oferecer os melhores anos da minha vida”, “Meu Deus, quero aprender a confiar em ti.”, e por aí vai.
Não me arrependo de nenhuma delas. Vejo apenas uma grande diferença entre as afirmações de Davi e as minhas. Fiz essas orações antes de vivê-las, o que é natural. Mas hoje o tempo de vivê-las chegou, e vejo com clareza que não é fácil, estando dentro de uma caverna no deserto, escondido daqueles que procuram lhe tirar a vida, sabendo que lá fora alguém lhe procura para matar, dizer “Porém tu, SENHOR, és o meu escudo... Deito-me e pego no sono; acordo, porque o SENHOR me sustenta.” (Sl 3:3a, 5).
Uma certeza apenas aquietava seu coração. Davi sabia que sua vida estava nas mãos de Deus. E só. Não importava que perdesse seu reino, não importava que fosse morrer, não importava que fosse seu filho aquele que lhe armara um golpe. O Senhor era quem lhe sustentava.
Hoje, quando percebo que a vida pode não ser como sonhei, que ela pode tomar rumos inesperados e que pode ser muito difícil viver na contra-mão do mundo; quando percebo que as mudanças em mim não ocorrem no espaço de uma noite, e que esse processo é doloroso; quando percebo que aquilo que desejo não é o melhor, e que o melhor eu não desejo; e quando percebo o teor das minhas orações, me vejo diante de um dilema: ou me dispor a viver ou me calar.
Ou vivo o que prego ou me calo. Ou, mesmo diante do incerto, confio em Deus ou paro de falar sobre Sua fidelidade. Ou acredito na bondade de Deus ou passo a professar outra fé.
Se a certeza de que Deus cuida de mim não aquietar meu coração como aquietava o de Davi, não pela ausência do medo, mas pela segurança em Deus, não posso dizer que o “viver para mim é Cristo, e o morrer é lucro” (Fp 1:21), não posso dizer “A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, mais me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo.” (2 Co 12:9).
Em síntese, ou me disponho a viver ou calo.
Com uma confiança íntima, reafirmo cada oração que fiz, com uma diferença apenas. Hoje sei que envolvem compromisso e renúncia, mas quero, sim, viver com Deus a vida abundante de que Jesus falou. Quero andar com Deus. E só.


Lissidna
20/04/07

Um comentário:

divagando... disse...

Concordo amplamente com vc, até pq tenho me visto nesse mesmo dilema... Minha esperança é, mais do q ter meus problemas resolvidos, encontrar neles uma intimidade maior com Deus. Beijão.